O Brasil enfrenta um inédito pico de casos de covid-19 em meio ao avanço da ômicron. Especialistas em saúde ouvidos pelo UOL não descartam neste momento a importância do passaporte da vacina para acesso a eventos e estabelecimentos, mas explicam que sua adoção deve ser aliada a outras políticas públicas para conter a transmissão acelerada da doença.

Os médicos dizem que a exigência dos comprovantes de imunização é uma “medida pedagógica” que ajuda a ampliar a cobertura vacinal — eficiente para quebrar a cadeia de transmissão. Mas destacam que a testagem em massa e medidas antiaglomeração são agora indispensáveis para barrar o contágio desenfreado.

Nesta semana, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), afirmou que não irá retomar a obrigatoriedade de máscaras ao ar livre. Ele cancelou o Carnaval de rua por ser inviável a exigência do passaporte de vacinação (adotado na cidade), mas manteve a festa em clubes e na Sapucaí.

Em São Paulo, o governador João Dória (PSDB) passou a exigir o passaporte para eventos públicos e privados e recomendou que as prefeituras reduzam em 30% a capacidade de locais passíveis de aglomeração.

Especialistas avaliam contudo que agora o momento é de adotar outras medidas e restrições mais rígidas.

Miguel Nicolelis, médico e neurocientista, reforça que a vacina impede um crescimento acelerado da doença — e que sua aplicação deve ser incentivada —, mas alerta que, se o número de casos for muito expressivo, uma proporção pequena de casos graves pode ser suficiente para sobrecarregar o sistema de saúde.

“A vacina ajuda a quebrar a transmissão, mas não impede totalmente. É preciso máscara, isolamento e evitar aglomerações. Não faz nenhum sentido reduzir um show de 5.000 para 2.500 pessoas”, afirma.

O médico Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, diz que as melhores medidas para se conter o coronavírus são baseadas na taxa de transmissão, e não na porcentagem de vacinados.

“Em dezembro tínhamos taxas baixas de transmissão, muita circulação de pessoas e números baixos. Hoje temos alta taxa de transmissão e é preciso um passo atrás: evitar aglomerações e usar máscaras, medidas que relaxamos no momento de baixa transmissão.”

 

Testagem é ainda mais importante, diz epidemiologista

“A testagem é muito mais importante do que a apresentação do certificado [da vacinação], porque a vacina não impede que as pessoas vacinadas se reinfectem. É muito importante que se detecte os infectados, para que eles possam ser isolados.” (Ana Brito, epidemiologista da Universidade Federal de Pernambuco)

Ela reforça, entretanto, que o passaporte é indispensável. A especialista explica que a vacina diminui a possibilidade de desenvolvimento de formas graves da doença e, consequentemente, óbitos.

“Fazer triagem populacional com teste é, talvez, a medida mais importante deste momento, aliada a outras não farmacológicas que são excessivamente conhecidas: uso de máscaras de qualidade e a redução de aglomeração e circulação de pessoas”, diz Ana Brito.

Rachel Ribeiro, professora da Faculdade de Medicina da UFF (Universidade Federal Fluminense) e doutora em microbiologia, reforça que a testagem não pode ser abandonada. Ela cita a alta procura por testes nas redes pública e privada na última semana, e a importância de se isolar todos os casos positivos detectados neste início de ano.

“A testagem é fundamental nesse momento. A transmissão acontece entre vacinados, mas se há a possibilidade de testar e isolar, é possível diminuir a circulação [do vírus]”, afirma.

 

Fiscalização de passaporte é indispensável, dizem médicos

“A cobrança [do passaporte] é uma ação pedagógica. Quando as pessoas têm seu acesso cerceado pela vacinação incompleta, elas se vacinam. Se não se preocupam com a saúde, se preocupam com o acesso.” (Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas da USP)

Para o infectologista, um erro comum é achar que na presença de todos vacinados não haverá transmissão. Ele destaca a importância da vacinação global —”a pandemia não acaba em um só país”— e o incentivo ao uso de boas máscaras.

“Eu vejo pessoas que falam que todos vão pegar e se expõem. Mas é um pensamento egoísta e irresponsável. Não é o momento desse pensamento, temos de fazer tudo para evitá-lo”, diz.

Rachel Ribeiro avalia que o passaporte vacinal já mostrou sua importância, já que os vacinados desenvolvem, em sua maioria, a forma leve da doença. Mas, para ela, o poder público ainda falha na fiscalização da medida.

“A pessoa na entrada de um lugar fechado não fiscaliza corretamente, não vê nome no passaporte e não checa se bate com o RG. Fazem assim porque não existe fiscalização. É preciso fiscalizar e investir em testagem em massa”, avalia.

O epidemiologista Pedro Hallal destaca que, “quanto mais gente vacinada, menos o [vírus] circula”, mas crítica a forma que o passaporte foi adotado. “O passaporte é essencial, mas para funcionar é preciso que haja fiscalização de verdade, e não o faz de conta que existe hoje em dia no Brasil.”

 

Fonte: UOL
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