“Alguém sabe se tem Pfizer em algum posto?”. “Astra em algum lugar?”. “Qual a previsão de diminuir o lote de CoronaVac?”. Com perguntas do tipo, participantes de um grupo no Telegram com cerca de 3.000 moradores de São Paulo buscam diariamente sua “vacina preferida” contra a covid-19.

Além desse, há outros grupos divididos por regiões da capital e da Grande São Paulo – centro, zonas leste, oeste, norte, sul e ABC Paulista. A reportagem do UOL encontrou ao menos seis deles, que somam cerca de 20 mil participantes, e acompanhou a rotina deles entre terça (20) e quinta-feira (22).

A prática dos chamados “sommeliers de vacina” – que acaba por postergar a vacinação condicionada à busca de um imunizante favorito – é rechaçada por autoridades da saúde, que recomendam o recebimento do imunizante disponível para acelerar a vacinação e ampliar a imunização da população. Além disso, não há estudos científicos que comparem as eficácias dos imunizantes contra o coronavírus.

Uma lista com links dos grupos no Telegram passou a circular nas últimas semanas quando a vacinação atingiu a faixa dos 30 anos em São Paulo. Nenhum deles é secreto – basta ter acesso ao link e ingressar sem qualquer entrave.

Mensagem de boas-vindas nos grupos para escolha de vacina - Reprodução - ReproduçãoMensagem de boas-vindas nos grupos para escolha de vacina – Foto: Reprodução

Ao ingressarem nos grupos, os novos membros veem uma mensagem fixada com regras de boa convivência. “Quem é contra que alguém queira escolher vacina, está no grupo errado”, resume o texto. No entanto, não é permitido “falar mal” de nenhum dos imunizantes.

“Não é um grupo para julgar ninguém nem para tentar convencer o outro de nada”, diz a mensagem.

 

Informações sobre aplicação, filas e ‘marcas’

Os grupos são alimentados voluntariamente por aqueles que foram a postos de vacinação. Há quem percorra até três postos para informar o tamanho das filas e quais vacinas são aplicadas.

Para organizar o fluxo de informação, há uma lista padrão que circula durante todo o dia (veja ao lado). Nela, os membros precisam copiar e atualizar o horário em que a informação foi colhida (tamanho da fila ou “marca” da vacina) e local (de preferência, com endereço). A vacina de cada laboratório tem seu campo de preenchimento.

Nesta semana, a mais rechaçada é a mais disponível. Com aplicação principalmente da CoronaVac, os “sommeliers” têm feito peregrinação por vacinas da Pfizer e AstraZeneca. O imunizante da Janssen, segundo os grupos, está em falta.

Sommeliers organizam mensagens para saber 'marca' de vacina aplicada - Reprodução - Reprodução

 

 

Membros defendem “direito de escolha”

“Sinto em mim que não é para tomar essa”, desabafou uma mulher sobre a CoronaVac. Na sequência, um homem complementa: “Não gostaria de tomar a Astra devido a problemas sobre trombo que já tenho e pode se intensificar.” Não há registros científicos sobre causalidade entre o recebimento da vacina e o aumento da trombose em toda a população.

Nota técnica do Ministério da Saúde, de 19 de maio, recomenda a suspensão da AstraZeneca apenas para gestantes. O texto ressalta contudo que “o perfil de benefício/risco desta vacina é ainda altamente favorável e deverá continuar a ser utilizada pelos demais grupos”.

Há participantes mais incisivos. Uma mulher publicou um “textão” mandando um “recado para o pessoal do ‘Vacina boa é vacina no braço’: tem público para todas as vacinas.”

“Eu até tava [sic] pensando em desistir e tomar mesmo que fosse a CoronaVac pois não tenho preconceito com nenhuma, é só questão de poder viajar a trabalho assim que melhorar o Brasil, mas só de pirraça agora vou continuar procurando a de minha preferência até achar, não importa o tempo que leve.”

Alegando que “todo mundo já pagou sua dose”, ela defende ter seu “direito de escolha preservado”.

 

Corrida contra o tempo e mensagens políticas

Após mapearem pela manhã a oferta de vacinas, os grupos começam a se organizar para uma “nova rodada” de buscas. A recomendação mais comum é tentar locais de vacinação em horários específicos a fim de checar a chegada de novas remessas.

Os grupos evitam mensagens de cunho político – em um deles, uma das regras, passível de exclusão caso burlada, é não falar sobre política ou ser anticiência. A reportagem verificou algumas críticas ao governador João Doria (PSDB) que o identificavam com a CoronaVac, indicando que para essas pessoas a rejeição ao imunizante tem uma carga política.

Quando alguém responde que tomou uma das preferidas, é confrontado. “Opa, sem querer desconfiar mas já desconfiando, tem foto do cartão? Infelizmente tem muita informação falsa aqui”, rebateu um membro do grupo. A foto não foi enviada.

Com o avançar do dia, chegam informações sobre filas, sugestões de organização – como criar um quadro de endereços – e conselhos (“arrisquem vir mesmo se estiverem longe!”).

A “democracia” é citada em algumas mensagens. A mesma internauta que defendeu a escolha de vacina em texto contundente, termina a noite com outra dica: “ocultem seus números [de telefone]”.

Ela argumenta que governos, prefeituras ou a imprensa podem estar monitorando os grupos e que a medida evitaria perseguições. “Estamos no Brasil, que não é tão democracia assim como eu pensava”, concluiu.

Mensagens criticam aqueles que defendem aplicação de qualquer vacina - Reprodução - Reprodução

Ao final do dia, há publicações sobre doses de vacina recebidas pelo Brasil ou pelo estado de São Paulo. A partir dessas informações, especula-se quando haverá determinada “marca” em maior quantidade.

Há grupos que fecham para publicações durante a noite a fim de evitar mensagens demais fora do período da vacinação. E não faltam publicações de incentivo à “luta” no dia seguinte.

“Amanhã a saga procurando a Pfizer irá começar bem cedo. Se eu encontrar, aviso de imediato”, disse uma mulher.

Depois das milhares de mensagens diárias, aqueles que conseguem se mostram gratos: “Agradeço mais uma vez a este grupo que me ajudou muito hoje! Desejo PROTEÇÃO, SAÚDE E PAZ A TODOS. Abs.”

Sommeliers comentam sobre entrega de doses para calcular data da 'melhor vacina' - Reprodução - Reprodução

 

Projeto para impedir ‘sommeliers’ em SP

No último dia 16, a Câmara de São Paulo aprovou projeto que manda para o fim da fila os “sommeliers” de vacina. O texto depende de sanção do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

“A renúncia ao imunizante motivará a suspensão do direito à vacinação no período regular previsto dentro no cronograma do Plano Municipal de Imunização (PMI) na rede municipal de saúde”, diz o texto.

Caso Nunes aprove, as pessoas que recusarem a vacinação deverão assinar um termo nos postos e aguardar o fim do calendário para poderem se vacinar.

 

Fonte: UOL
Foto: Reprodução